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Terça-feira, Maio 22, 2007

discutir relação é coisa de mulherzinha, já dizia minha tia!

Acabo de ver o filme Garrincha, Estrela Solitária. Não sei o que aconteceu na época que nem percebi sua passagem pelos cinemas. Não sei se foi no ano em que morei fora ou se foi uma realização que não rendeu comentários, o fato é que só agora pude ver. Tem semana que chego na locadora e pego apenas filmes nacionais. Dessa vez vi também 1,99, um filme cujo branco é a cor dominante e que é de uma pretensão absurda! É um supermercado de palavras e microhistórias vão acontecendo ali. Nenhum ator conhecido e nenhum diálogo, pouquíssima narração. A idéia é surpreendente, o resultado poderia ser mais interessante, embora o que fica mesmo é um pouco daquele ranço paulista de querer ser novaiorquino e patinar na jeguice nacional.

Já o filme do Garrincha lembra microssérie da Rede Globo, misturando documentário com ficção. Taís Araújo até que se esforça para dar exuberância à sua composição de Elza Soares, mas ainda precisa comer muito feijão ou passar um pouco de fome para ter mais veracidade, não basta a maquiagem ser perfeita. O protagonista André Gonçalves é realmente um ator de talento, poderia ter caído na pieguice de mostrar um ídolo do futebol nacional que trafega da malandragem-sucesso-fracasso num gráfico vertiginoso de maneira caricata, mas não! O Don Juan da telinha nos mostra um trabalho bem costurado e alinhavado.
Coincidentemente há umas três semanas vi André Gonçalves no Porto da Barra acompanhado de uma biba baiana das antigas e uma moça bonita. No mesmo dia, dessa vez na praia do Buracão, o insuspeito trio descia as escadas enquanto eu as subia com Dan.

Curioso o outdoor que anuncia uma convenção dos publicitários da Bahia. Na foto, a silhueta de dois homens na praia e os balões com o seguinte diálogo:

- Quero discutir a relação!

- Mas você também vai ter que me ouvir...


Depois quando dizem que o homem baiano só é macho até o meio dia tem gente que ainda reclama!

JoHnNy::[12:27] |


Sábado, Maio 12, 2007

um passeio pela semana

O papa alemão e sua cara de rato saracoteando feito astro pop no Brasil, uma semana de ventania em Salvador e o cinismo de Clodovil Hernandez na TV depois de chamar a colega deputada de feia. Essas foram as três coisas mais marcantes da semana para mim.

O ex-cardeal Ratzinger, agora papa Bento XVI, com um discurso caduco, contra o aborto, contra o casamento de homossexuais e o pior de tudo, contra o uso da camisinha fez essa viagem ao Brasil numa tentativa da Igreja de dar uma freada na ascenção das diversas igrejas neo-evangélicas. Eu ouso dizer que é um pouco tarde demais para isso. Os ritos católicos, seu discurso embolorado e a falta de aproximação com o rebanho só fizeram afastar a massa que, atordoada, migrou para as diversas seitas travestidas de religião que assolam o país afora. E que me desculpem os céticos, mas quem é mesmo o frei que se tornou o primeiro santo brasileiro?

Fazia tempo que não ventava tanto na capital baiana, esses dias andando de moto, retornando da faculdade onde dou aula, parecia que ia sair voando do asfalto dada a ventania ali pela avenida ACM. No fundo, gosto desse clima. É outono e a cidade perde a característica principal de ser quente como uma África e passa a ser soberbamente tropical, com um azul único e uma luz que quase chega a cegar.

Fiquei petrificado diante da TV ao ver a matéria sobre a desfaçatez do agora deputado Clodovil Hernandez. O estado de São Paulo elegeu o costureiro como um dos deputados mais votados em todos os tempos de legislatura. Isso por si só bastaria para ilustrar a asneira política em que nos metemos nos últimos anos. Se acusam os baianos de eleger ACM, o que dizer dos paulistas que ainda votam em Maluf e trazem Clodovil para representar sua gente na Câmara dos Deputados em Brasília? Essa semana, sabe-se lá porquê, Clodovil insultou uma colega deputada dizendo que ela não daria para ser protistuta uma vez que era feia de doer. A mulher subiu no plenário e se esvaindo em lágrimas foi se queixar ao presidente da Câmara que mais tarde pediu retratação ao ínsigne colega Clodovil e o acusou de falta de decoro.

Tudo uma palhaçada! Porque Clodovil ainda irá aprontar muito na Câmara dos Deputados, não foi à toa que ele ficou anos sem trabalho, na geladeira de várias TV's, justamente por essa verve endiabrada e a língua viperina que se ele morder, por descuido, morre envenenado em segundos!

JoHnNy::[14:27] |


Domingo, Maio 06, 2007

uma noite de rio de janeiro

Madrugada de 6 de maio de 2007. Acordei sobressaltado, talvez um sonho, um quase pesadelo que me tirou da cama, fui ao banheiro mijar e depois perambulei pelo minúsculo apartamento. Bebi água no que chamam de cozinha e vim ao computador que piscava com suas luzinhas intermitentes, culpa maior é a desse mouse fechativo, quase um trio elétrico baiano com suas variadas luzes, faltando apenas o som acachapante.
Dormi preocupado com o meu amorzinho lindo que ontem passou mal no curso de cinema, me telefonou e, solícito, levei-o em casa. Amores são assim, para o prazer, para o delírio, na saúde e na doença, na vida e na morte também. Marcamos cinema depois que deixei o amor em casa, para mais tarde, para as onze da noite, caso melhorasse. Ligaríamos às nove um para o outro.
Fui então à festa de aniversário de um ex-amor, muito ex, muito distante, reencontrei sua família, seus sobrinhos, quase esperei encontrar seus netos em fotografias. Amores também assumem esses lados, transformam-se em quase estranhos. No fundo foi divertido, foi instrutivo, para perceber que amadurecemos, mas alguns de nós nunca perdem os vícios.

Liguei às nove para o novo e definitivo amor. Quem há de negar que não? Para mim o definitivo dura o tempo que for necessário. O celular não respondia, o celular fez um pacto para me maltratar. Liguei às nove e trinta, às dez e quinze, às dez e quarenta e cinco, às onze e o cinema foi para o ralo.
O cheiro do ralo nesse minúsculo apartamento beira o insuportável, entupo a saída da fedentina com panos e panos para amenizar o terrível odor e tranco a porta do banheiro com sete chaves, como se isso afugentasse a possibilidade do cheiro do ralo de ali escapar.
São mais de quatro horas da manhã, dormi sem tomar banho, com um pouco de álcool na cabeça e muito feijão processando pelo corpo, gases, suor, memórias. Antes de adormecer, lembro que ainda insisti em mais uma tentativa de saber o que acontecera com o meu amorzinho. Tomara um sonífero e só acordaria no dia seguinte? Sim, era o que eu pensava. E se fora sequestrado entre a rua que o deixei ontem à noite e a porta da sua casa? E se a rua das Ostras é realmente uma rua de moluscos perigosos? E se os seus pais revoltados com a possibilidade do nosso enlace o trancou num armário cujas chaves jamais terei? E meu sono foi composto de pesadelos, assombros e sobressaltos. Acordei com o coração na mão por duas vezes, olhei para o músculo pulsante entre os dedos e lamentei a minha ignorância.

Foi então que o Rio de Janeiro se instalou dois andares abaixo de mim. Gritaria de mulher, três tiros, mais gritaria, correria, balas perdidas, ainda coloquei a cabeça na janela para me inteirar do que acontecia e lembrei que sem os óculos, os mesmos óculos que me camuflam em Clark Kent, jamais veria a bala vindo em minha direção e recuei atônito. Ainda vi o carro dos assaltantes de motor ligado na rua, logo abaixo da minha janela, esperando o comparsa que acabara de assaltar o hotel levando uns mil reais ou quiçá uns três mil ou nem isso.
Vi o segurança do estacionamento, onde minha moto se camufla de scooter, correndo para avisar a outro segurança que chamasse a polícia. Vi as viaturas chegando e mais tiros sendo disparados para o ar. Rezei um Pai Nosso. O cheiro de pólvora se instalou em minha sala. Um princípio de pânico me atingiu. Ladrões saíram em disparada e a polícia atrás deles. Nenhum sangue, nenhum ferimento no corpo de ninguém, mas muitas almas nas janelas acordaram nessa madrugada baiana que bem poderia ser carioca, capixaba, paulista, mineira, americana, africana, do mundo.

Manhã de 6 de Maio. Acordo e banho-me para lavar o dia, escorrer pelo ralo as sensações vividas no início dele. O amorzinho finalmente ligou dizendo que dormira feito pedra, sua mãe cuidara dele, deu-lhe chá, remédio e um tanto do carinho que eu daria pretensiosamente. As mães são as servidoras mais mal pagas do universo, porque não há amor que pague o que elas nos devotam. Contei-lhe a noite de Rio de Janeiro que vivi e pelo telefone escutei:

- E eu não estava aí para te proteger!

Só pensei: Estava sim, meu amor, estava sim...

JoHnNy::[10:39] |