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Quarta-feira, Maio 24, 2006


meninos, eu vi

A imprensa toda comentou, as más línguas colocaram ainda mais lenha na fogueira, mas a cena mais esdrúxula da semana passada eu vi. Era sexta-feira, depois da comemoração do aniversário de um amigo teatral um pequeno grupo se formou e rumou à única boate gls decente da cidade. Passava das duas da manhã e aquele senhor sem camisa, com uma calça de malha branca, justa, uma barriga imensa e uma bunda maior ainda, completamente maquiado, de olhos esbugalhados, dançando desconectadamente na pista era o arroz de festa do momento: O ex-padre Pinto. A última vez em que lancei o olhar para o ex-pároco ele corrijia o batom embaixo da luz estrobo auxiliado por um rapaz musculoso que segurava o estojo de maquiagem. Dizem que na sequência, após a boate, visivelmente embriagado o padre Pinto caiu de uma amurada, se sentiu mal e foi internado no Hospital Português. Ao sair, os repórteres perguntaram sobre a recente polêmica da sua iniciação nos ritos do candomblé, ele se limitou a dizer que não voltaria mais ao terreiro. Depois de perambular nos últimos meses por quase todos os tablóides e programas de auditório do país o já famoso padre Pinto, tal e qual um decadente participante de reality show, agora cria situações embaraçosas para si mesmo atraindo a curiosidade pública.

Ouvi de um taxista essa semana, "um homem inteligente como ele não deveria se prestar a esse papel ridículo." Porque é assim que as pessoas comuns vêem a nova vida do senhor José Pinto. Que ele tenha passado grande parte da sua existência servindo aos cânones rígidos da Igreja Católica e agora queira experimentar "o outro lado", não vejo nenhum problema, muito pelo contrário, ele é livre para fazer o que quiser da sua vida. Ninguém deve ser contra que ele procure diversão, muito menos que se entupa de maquiagem Helena Rubinstein, mas creio que deveria se preservar mais. O mesmo povo que antes o admirava não vai perdoar as trapalhadas em que anda se metendo. Há seis meses era um nada ortodoxo membro da Igreja católica, na Festa de Reis se vestiu de Oxum e dançou no altar, denunciou que estava sendo jurado de morte, foi expulso da sua congregação, apareceu em rede nacional anunciando a criação de uma grife e mostrando seus dotes de artista plástico, agora quer virar pai-de-santo, em seguida é visto numa boate gay bebendo até rachar os cornos. O ex-padre está virando um personagem de si mesmo, desses tipos folclóricos de que a Bahia é pródiga em revelar ao Brasil.

Li no Correio da Bahia um texto bem simpático e consciencioso do antropólogo Vilson Caetano de Sousa Júnior e reproduzo aqui alguns parágrafos:

"Acredito, de fato, que o nosso amigo padre Pinto - digo amigo, porque ele durante anos demonstrou carinho, atenção e respeito para com as populações negras e o povo de candomblé quando esteve à frente da comunidade da Lapinha - possa estar fazendo esta opção pela religião dos orixás. Se assim for, que bom que faça, saberemos que teremos mais uma voz que bradará contra a intolerância religiosa. Sugiro, todavia, que isso seja feito longe das câmeras, do sensacionalismo, da exposição pública, dos olhares curiosos, porque nós de candomblé já estamos acostumados com a especulação, a exposição e a ridicularização de nossa religião. Até porque isso confunde as pessoas em relação à dinâmica e liturgia dos terreiros de candomblé."

"Se o padre Pinto, de fato, quiser entregar-se aos orixás, que assim seja, mas que não transforme esse encontro com o sagrado que pode ajudar a outras pessoas a fazerem também, em espetáculo, porque isso nos nega, tira a nossa dignidade, nos desrespeita e pode se tornar algo abominável. Por fim, é bom lembrar também que antes de ser babalorixá, comumente traduzido como pai-de-santo, é bom sermos filhos, porque ser filho é muito bom por poder estar amparado por várias pessoas que nos querem bem, e acredito que dentre o povo de candomblé muita gente, mais do que ver o padre Pinto num terreiro, lhe quer ver feliz".

Então, eu concordo com o taxista quando ele diz que o padre Pinto é um homem inteligente, espero que use essa inteligência para encontrar seu novo caminho na vida, de preferência longe de confusões, e assim seja feliz!

JoHnNy::[22:19] |


Sexta-feira, Maio 19, 2006

por isso bebo e choro

Para calar a minha boca depois de ter presenciado a convenção da Escolinha Tralalá no último final de semana, esses dias tenho encontrado uma criaturinha que, a despeito de ter saído das fraldas há pouco tempo (quase 20!), dá um show no quesito performance sexual. Bem feito pra mim que fico desdenhando dessa nova geração. O mais não posso falar porque o pudor me impede.

O que é isso que está acontecendo nesse país? O crime organizado mandando e desmandando na maior cidade da América Latina. Que governador incompetente esse paulista, um tapa-buracos para Alckmin se lançar na candidatura à presidência que não vai dar em nada. Disse que São Paulo não precisava de ajuda Federal e no entanto o cenário é de uma guerra civil com dezenas de ônibus queimados e um total de 152 mortes e quase 300 ataques a civis e militares. Alguém em sã consciência pode imaginar isso num país civilizado, numa democracia verdadeira? Bandidos que agem atrás das grades, mandando e desmandando, um verdadeiro governo paralelo? Pela sigla que os criminosos usam já dá para se ter uma idéia: PCC (Primeiro Comando da Capital), pois são eles que estão comandando mesmo.

De dentro dos presídios os líderes dão as ordens através dos celulares. O Jornal Nacional de hoje mostrou uma matéria exibida há mais de 1000 dias anunciando o bloqueio dos sinais de celulares pelas operadoras de telefonia num decreto baixado pelo governo. Decreto esse que nunca foi cumprido e só agora no auge da crise e após muita discussão, enfim, será! E vem Copa do Mundo aí e vem eleição para presidente, senador, deputados e esse país de quinta continuará sendo uma republiqueta de bananas.

Por isso eu bebo e choro, título de uma música de Odair José, o cantor com a elegante alcunha de "terror das empregadas" que contou no Programa do Jô hoje que morou na rua, dormiu nas marquises de prédios quando chegou ao Rio no fim dos anos 60 e só depois conheceu o sucesso, chegando a ir a Londres várias vezes já nos anos 70 para absorver a efervescência cultural da época. Óbvio que ele não usou nada do que tenha visto em sua obra que é considerada o suprasumo do brega e que recentemente recebeu homenagem singela de artistas consagrados do pop rock nacional. O disco "Vou tirar você desse lugar - Tributo a Odair José" foi lançado em janeiro desse ano e traz, entre outros, Zeca Baleiro, Paulo Miklos, Pato Fu e outras bandas indies brasileiras em releituras modernas das canções do compositor goiano.

Meu aniversário é mês que vem (dia 24) e aceito o disco do Odair como presente, assim como estou ansioso para ganhar o maravilhoso cd "Autumn in New York" da Ithamara Koorax que tem meu nome nos agradecimentos! Sou ou não sou um rapaz muito chic?

JoHnNy::[03:18] |


Sábado, Maio 13, 2006


a convenção da escolinha tralalá

E então eu resovi dar uma geral no apartamento, são unânimes os comentários de que o mantenho arrumado, mas a geral foi mais subterrânea, arrumando aqui e ali do que não se vê e jogando fora papéis e coisas que não funcionam mais. Sou apegado a bilhetinhos, programas de peças, cartões postais e acabo juntando tudo, até que um dia ponho tudo no lixo. Essa semana um desses dias chegou. Para enfeitar uma garrafa decorativa resolvi comprar um licor de jabuticaba na delicatessen da esquina, o vendedor avisou que esse licor era especial e delicioso. Não sou de beber em casa, mas o tal do licor é realmente danado de bom. Ontem enchi umas duas taças e fiquei alegrinho e deu vontade de sair.
Em contato com Raphael pelo msn resolvemos nos jogar no bar do Tom, que agora funciona no andar de cima do Barraco Show. O Barraco Show é um bar e casa de espetáculos nos moldes do Favela Chic de Paris. Um dançarino baiano se encheu de grana na Europa e abriu essa casa no verão, mas os preços exorbitantes afastam os locais, só turistas desavisados atraídos pelo show folclórico é que frequentam o local, agora com o bar do Tom vem a tentativa de atrair os moderninhos de plantão, os artistas e o povo gls. O ambiente é bem bacaninha com um visual incrível da praia do Porto da Barra, mas a cerveja long neck ao preço de R$3,20 mais 10% é de afastar mesmo qualquer um. Tomei 3 cervejas dessas e paguei R$ 12,00.
Depois de um papo longo sobre relacionamentos e seus desdobramentos nos jogamos na Off Club. O comentário de Rapha na entrada é se havia uma convenção da Escolinha Tralalá, tamanha a quantidade de adolescentes (quase crianças!) na boate! "Nós que estamos velhos, meu caro", foi a minha resposta. E me propus a dar um curso de massinha em 3 lições: "Como fazer um barbapapa"
Só não sei se aqueles alunos da Escolinha Tralalá sabem o que seja um barbapapa!
Nenhum dos fedelhos se interessou no meu curso, então rolaram uns beijos bêbados numa criatura do curso avançado, na verdade, uma figurinha já carimbada no meu álbum e depois rumei pra casa em velocidade moderada, afinal licor, cerveja e motocicleta não é uma boa combinação. E pensando bem foi melhor assim já que minha libido não se assanha mesmo para quem tem menos de 20 anos!

JoHnNy::[18:35] |


Segunda-feira, Maio 08, 2006

deus e o diabo na terra da música

Um dos momentos mais emocionantes da viagem à Paramirim foi quando da apresentação da filarmônica de um pequeno povoado vizinho na praça pública. Um bando de lavradores vestidos em uniformes já surrados tocando música com instrumentos novíssimos e numa leveza e numa beleza que a condição humana ousa alcançar em raros dias. Enchi o coração de emoção e ao final fui cumprimentar um a um, às moças reservei beijos e aos homens um aperto de mão e pude sentir quão grossas e calejadas eram aquelas mãos que minutos antes tão delicadamente produziam música, produziam poesia sonora. Foi de arrepiar!

Outro dia acompanhei um amigo na busca de uma estante para colocar seus livros que repousavam em pilhas espalhadas pelo quarto do seu imenso apartamento. Fomos parar numa dessas lojas de departamentos e depois de escolher uma estante que combinasse com a cor dos móveis partimos para sua casa e fui vasculhar os títulos. Entre volumes de teatro, muitos romances modernos, o que eu estava querendo ler era João Ubaldo com o seu "A Casa dos Budas Ditosos", influenciado pela presença da peça com a Fernanda Torres em cartaz na cidade. Como não encontrei o Ubaldo acabei ficando com o João Silvério Trevisan. Já havia lido "Ana em Veneza" e dessa vez peguei "Seis Balas num Buraco Só - A crise do masculino", onde ele discute a dicotomia do masculino feminino e a obrigação do homem em mostrar força perante um mundo que valoriza cada vez mais a sensibilidade. O que me incomodou muito na leitura é o excesso de citações, a leitura não flui a contento com aqueles números que te forçam a ir ver a origem da citação, depois de tanto vai-e-vem achei por bem ignorar isso. São 330 delas e muitas esclarecem o parágrafo. O livro acaba parecendo uma tese acadêmica. Ponto para o capítulo em que ele discute os personagens dos filmes de Glauber Rocha e põe em discussão a masculinidade do cineasta que tanto amava e odiava os homossexuais chegando a declarar que na Bahia "os machos eram mais inteligentes e eficazes mas sem as bichas a vida era chata". E ainda "a Bahia bicha era inteligente e por isso tem poder". E para completar:
"Eu gostava das bichas que eram menos machistas e mais inteligentes e cultas que a maioria dos machos embora guardassem um ranço direitista que me fazia voltar aos machos comunistas que bêbedos desbundavam, tocavam, cantavam, recitavam, discutiam, deliravam ouvindo bossa nova e free jazz." (in Revolução do Cinema Novo, de Glauber Rocha, Alhambra/ Embrafilme, RJ, 1981, p. 244.)

JoHnNy::[19:16] |


Quarta-feira, Maio 03, 2006

viagem à chapada sul e a crise do dinossauro dos blogs baianos

O que fazem oito criaturas dentro de uma van tendo que cumprir 742 quilômetros? Bem, com certeza, uma delas tem que dirigir, os outros sete dormem, conversam, cantam, lêem, brincam de joguinhos para passar o tempo, inventam o que for para a viagem não ser um tédio maior do que já é. A recompensa valeu à pena, chegamos em Paramirim e minha intuição estava certa, a cidade é aprazível, cheia de atrativos naturais, as pessoas dóceis e gentis, a comida gostosa e a oficina foi interessante. Retornaremos para lá em 17 de junho e não vejo a hora, apesar dos 742 quilômetros!

Estou entrando em crise novamente com esse blog, notem que os post têm rareado com intervalos de até mais de uma semana. O que me incomoda aqui, às vezes, é o tom confessional, memorialístico, fico me perguntando a quem pode interessar a vida desse homem contada em prosa, tão cheia de banalidades e nada assim pitoresco? Já me convenci uma época que só interessaria a mim mesmo, que poderia no futuro distante ficar lendo e repassando os fatos vividos. Canceriano que sou, sei que vou gostar, mas isso cansa...

Todos os amigos que começaram blogs do tipo na época já fecharam suas portas, este dinossauro aqui ainda resiste. O primeiro post do Bokapiu é de 2002, antes tivesse colocado energia suficiente e escrito um livro.

JoHnNy::[12:02] |