Sexta-feira, Abril 30, 2004
emoção ao vivo
Não tem patrocínio de grandes empresas, aliás patrocinador nenhum, não é casado com mangangão do governo do Estado nem chupa as tetas podres das vacas que comandam a cultura local. Teatro baiano? Tsc tsc tsc... Que nada! Emoção viva foi a comemoração de cinco anos da peça "1,99" na noite de ontem quando Ricardo Castro conseguiu juntar apenas e sobretudo com o poder que emana do coração atores, atrizes e amigos-não-atores e fazer a celebração de uma vida. 25 em 1. Do festejado monólogo, viu-se o conhecido texto se transformar num vaudeville com entra e sai de gente no palco, num total de vinte e cinco, sem perder a característica de fazer rir e pensar. Em cena, um ator que eu não conhecia - Agê Habib - se destacou contando as agruras que Ricardo passou em São Paulo quando foi convidado a maquiar o quinteto Jô Onze e meia sem jamais ter maquiado outrem. Estava tão à vontade que botou no bolso os tarimbados atores que se apresentaram antes. Havia um nervosismo no ar. Um amigo comentou ao meu lado: "É que ele não está tentando imitar Ricardinho". Por isso foi original. Concordei com esse amigo. O início me causou estranheza, não havia nem poderia haver o brilho natural que Ricardo imprime ao texto, suas verdades, coisas vividas. Soavam alienígenas na interpretação dos outros atores, talentosos todos, mas não estavam à vontade. Projeto arriscado. Como sei que Ricardo é chegado num risco e ousadia pouca para ele é besteira, relaxei na poltrona e desliguei o cri cri que mora em mim. Dali a pouco entra Psit Motta fazendo o adorável menino amigo de Gina dos 6 dedos e a emoção entrou junto com ele no palco do Salesiano. O transformista Baggagerie Spielberg na cena da boate gay levou a platéia ao delírio e ainda disse o seu nome completo com mais de 35 sobrenomes! Ver a grande dama do teatro baiano, Nilda Spencer, tão pequena e frágil falando de paixão e sendo assistida por Ricardo sentado no cantinho do palco foi outro grande momento. Evelyn Buchegger, Márcia Andrade, Marcelo Praddo, Beto Mettig, Fernando Guerreiro, Wilson Mello, Fernanda Paquelet, João Perene, a cantante Simone Sampaio (que poderia ter se limitado a cantar apenas), Cleise Mendes, Fafá Menezes, Widoto Áquila e todos os outros pisaram o tapete majestoso que faz desse espetáculo um dos melhores produtos da verdade cênica de um ator. Que tenha fôlego para mais cinco anos! Estão agendadas apresentações em Portugal em junho. Esse menino vai fundo e vai longe...
JoHnNy::[04:32]
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Quinta-feira, Abril 29, 2004
as espadas nunca se cansam
Essa frase sai da boca de Lucy Liu em Kill Bill pouco antes de ter a parte superior do crânio decepado por Uma Thurman. O esteta Quentin Tarantino dessa vez se supera, realizando um filme cheio de referências, excesso de sangue e ousadia tão pouco visto no cinema americano. Me diverti como se estivesse no sofá verde da casa de mainha nos anos 70 assistindo a um filme na televisão telefunken.
Não vejo a hora de Kill Bill vol. 2 chegar às telas por aqui.
Depois de passar o dia ao lado de Kleber e Mariette, almoçamos uma lasagna na tarde chuvosa, a noite foi reservada à minha irmã Mariuna e meu sobrinho Marcéu. Pós cinema esticamos até a Cia. da Pizza recém reformada com ambientação de Paulo Henrique, o arquiteto dos moderninhos soteropolitanos.
Chove bastante na cidade solar, mas apesar disso não me molhei.
JoHnNy::[01:47]
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Quarta-feira, Abril 28, 2004
preciso ir
Uma bola de neve avança em minha direção, estou parado, estático e paralisado fico vendo-a crescer sem ter o que fazer. Um baile de máscaras, todos dançam, estou nu, descalço e o pior de tudo: sem máscara. Ela estanca diante de meu nariz, respiro gelado, um filete de suor desce das minhas têmporas. Alguém comenta que tenho o peito bonito, meu pau murcha. Solto um espirro lancinante e caio. Me tiram para dançar, piso nos pés e peço desculpas. Levanto cambaleante e saio, penso em correr, mas desisto. É tarde, faz frio. Não há mais música, a multidão dispersa. Tenho que ir e vou. Atrás de mim ficam a bola, o medo e a atração. O mesmo alguém me toma pelas mãos e me leva consigo sem destino. Dentro de mim uma chama acesa. Nem quero saber para onde vou.
JoHnNy::[04:15]
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Terça-feira, Abril 27, 2004
celebritude
A longa viagem me deixou o resto do dia prostrado. Depois de ir buscar a moto na Barra pilotei para casa, entrei na internet, dei uma checada geral, deitei na rede, li uma revistas e o sono chegou de mansinho. Adormeci até a hora do Jornal Nacional, depois assisti a novela onde a mocinha encheu de porrada a cara da vilã. A cena foi tosca, uns tabefes que fariam mal a uma mosca conseguiram destruir o rosto da malvada e ainda arrancar-lhe um dente. Mister Gilberto Braga anda escrevendo mal ou é culpa mesmo dos diretores. Isto findo, bateu uma fome monstro e fui à cata de uma lanchonete pelas imediações. O Rio Vermelho vazio e um frio glacial me fizeram pilotar até a Barra. Encontro uns amigos na balaustrada, comentamos da novela (!), encontro um rapazola ator-de-quinta-categoria, tomamos sucos juntos e momentos mais tarde percebo que meu celular sumiu. Das duas uma: Ou o celular caiu da mochila ou o rapazola ator-de-quinta afanou o aparelho. Eu mereço, eu mereço!
JoHnNy::[13:44]
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Segunda-feira, Abril 26, 2004
estou de volta
Depois de viajar por mais de 10 horas dentro de uma renaut master (o motorista se recusa a chamar de van) com o corpo moído e quebrado, eis-me de volta à cidade de São Salvador da Bahia. Estava em Barra do Mendes, cidade distante uns 600km de Salvador, na microrregião de Irecê. Lá aconteceu o Projeto Domingueiras que visa resgatar as manifestações populares das cidades visitadas. Apresentação de terno de reis, grupos de dança, teatro e música foram o ponto alto do domingo. No sábado dei um curso aos interessados em teatro, dentre eles jovens que participam de um grupo no longínquo povoado de Antari. O mais interessante de tudo é ver o quanto a arte é transformadora, capaz de mudar o dia-a-dia de gente que não tem absolutamente nenhuma opção de lazer lá nos cafundós do mundo. Me diverti muito com a peça que apresentaram e troquei informações com eles. Não fui lá como um alienígena detentor do saber, mas como alguém que quer conhecer o universo do outro e revelar um pouco do seu. Na ida ouvimos Portishead e o céu repleto de urubus em Morro do Chapéu encheu de beleza a tarde de sexta-feira.
JoHnNy::[16:35]
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Quinta-feira, Abril 22, 2004
colar de pérolas
"Todas juntas, todas unidas, todas falsas"
Assim definiu ontem um amigo meu o encontro da gente de teatro da Bahia na noite de gala no Teatro Castro Alves durante a entrega do prêmio Braskem de Teatro aos melhores de 2003.
Foi uma cerimônia longa, cerca de três horas, onde o tema foi a censura na época da ditadura militar e a resistência dos artistas que estão no palco há quatro décadas ou mais. A velha guarda do teatro baiano foi homenageada e um pouco de sua história foi comentada para uma platéia de 1500 pessoas. Depois da premiação o mestre de cerimônias Vladimir Brichta convidou a todos para um lauto coquetel onde o whisky rolou solto. Me acabei no vinho branco e ainda ganhei um beijo na boca de uma insuspeita pessoa que se declarou estar de olho nesse daqui há algum tempo...
A Bahia aplaude e agradece...
JoHnNy::[23:20]
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Quarta-feira, Abril 21, 2004
tiradentes
Feriado em plena quarta-feira, faz um lindo dia de sol daqueles de filmes dos anos 50 bem água com áçucar, todo mundo lindo, sorridente e feliz. Da janela avisto o mar azul, nuvens no céu, gente de sunga e biquini que desce pra praia. Tudo isso e eu indo ensaiar numa sala fechada...
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Ontem me joguei na night depois do ensaio, umas cervejas com João Neto no Beco da Barra, umas sacudidas ao som do bate-estaca na Off, um pit stop com Rael...
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Quero assistir Kill Bill do Tarantino hoje. Quem quer ir comigo?
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Se você não estiver fazendo nada responda ao quiz "Quem é Johnny" com perguntas renovadas e frescas como devem ser as vidas!
JoHnNy::[15:17]
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Terça-feira, Abril 20, 2004
filmes comentados
Acabei hoje a maratona de filmes que iniciei na quinta, um por dia:
"Actually Love": Uma comédia inglesa com Emma Thompson, Hugh Grant e Rodrigo Santoro. Vários casais às vésperas do natal e suas histórias de amor. Filminho insosso como a visita de um primo distante...
"O Homem que Copiava": Boas atuações, roteiro ágil, dá uma caída no final, vale à pena assistir. Lázaro Ramos se esforçando no sotaque gaúcho é delicioso! Vale também por ver que o Rio Grande do Sul é capaz de produzir um filme com qualidade técnica.
"A Viúva de Saint Pierre": Filme de época canadense com Juliette Binoche, Daniel Auteuil e Emir Kusturica. Mesmo com elenco de ponta, o filme se arrasta de tal maneira que é impossível segurar os cochilos.
"O Homem do Ano": Ótima atuação do Murilo careta Benício em mais um expoente do renascido cinema nacional. Violência como ingrediente não deve faltar à nova fórmula. Prêmio de melhor filme no Festival de San Francisco 2003.
"A Teia de Chocolate": Título original "Merci pour le Chocolat" com a maravilhosa Isabelle Huppert e Jacques Dutronc. Direção de Claude Chabrol. Um desses filmes franceses assépticos até a medula. Assistir ou não é a mesma coisa... Uma curiosidade: Quem toca o piano soberbamente é o pianista baiano Ricardo Castro, considerado um dos melhores do mundo na atualidade.
"The Butcher Boy": Título em português "Nó na Garganta". Sendo Neil Jordan o diretor já é meio caminho andado. "Traídos pelo Desejo" e "Entrevista com o Vampiro" são da lavra desse senhor. Crudelíssimo e sensível filme. De todos foi o que mais gostei.
Voltaram os ensaios de "Antônio, meu Santo", temos duas apresentações para o projeto Teatro Solidário que acontece no SESC Pelourinho. Nossas apresentações serão dias 30/04 e 1º/05 às 20 horas. O ingresso custará R$5 + 1kg de alimento, tudo voltado às intituições de caridade! Quem não viu, vá ver e quem já viu vá dar uma força!
JoHnNy::[14:41]
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Segunda-feira, Abril 19, 2004
todo dia era dia de índio
O calendário é todo cheio destas datas comemorativas. Quando era criança sabia de cor todas elas, mas hoje em dia passam batidas. Hoje fui resolver um problema no plano de saúde e na saída vi uma linda menininha fantasiada de índia e não entendi o motivo, mais tarde assistindo ao Jornal Nacional vi que hoje é o dia do índio. Tem um livro com dois tomos de um brasilianista sul africano intitulado "Brazil" (que ficou anos em primeiro lugar na lista dos mais vendidos) que relata como era o país antes da chegada dos portugueses. Havia muitas nações indígenas por aqui, sociedades organizadas com línguas próprias e códigos específicos. Os europeus abusaram da ingenuidade destes povos e praticaram um dos maiores genocídios da história em nome da civilização, da ganância econômica e do espírito bélico. Acho tão hipócrita criarem um dia para o índio. Recentemente em Rondônia índios promoveram um massacre matando 29 garimpeiros que invadiram sua reserva para explorar diamantes. Em dois anos de exploração foram retirados diamantes que totalizam cerca de 2 bilhões de reais. E toda essa riqueza escondida no subsolo brasileiro nos confins da região norte é dos índios. O homem "branco" continua barbarizando, mas não há inocentes nessa história, não se iludam. O que me preocupa é a invasão biológica que está acontecendo sob as barbas do governo na floresta Amazônica e foi alvo de matéria da revista Isto É semana passada. Países europeus e principalmente os Estados Unidos têm mais de 150 Ongs agindo na região, "cuidando" dos índios e pesquisando os remédios naturais extraídos das plantas endêmicas. Eles extraem o princípio ativo de muitas plantas, registram como descoberta deles, criam os remédios e cobram royalties caríssimos. Estes remédios entram no Brasil como produto importado inacessível à grande maioria dos brasileiros. Na frente das sedes de algumas Ongs a bandeira da comunidade européia está hasteada e quando soldados do exército brasileiro perguntaram o motivo da bandeira do Brasil não estar também, ouviram uma francesa dizer com o indefectível sotaque: "Ora, o Brasil não ajuda em nada a essa região". Para completar, numa delas, havia um mapa do país sem os contornos da Amazônia. Há anos corre um boato de que em escolas americanas ensinam que a floresta amazônica é patrimônio da humanidade e não um legítimo terreno brasileiro. Imagino que num futuro não muito distante haverá uma guerra pela posse desse ouro verde que ainda nos pertence...
JoHnNy::[21:21]
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Domingo, Abril 18, 2004
saturday is blue
A diarista chegou cedo no sábado, fez uma faxina monstro e deixou a casa bem limpinha. A poeira já tomava conta até da minha alma, porque o corpo, esse já andava alquebrado com a rinite. Falando nela quero agradecer a todos que enviaram mensagens com receitas e desejos de melhora. Todos vocês são uns fofos mesmo! Não vou citar nicks e nomes pois estão todos nos coments abaixo. A noite de ontem foi de imersão no underground gls da soterópolis. Primeira parada no Beco dos Artistas, onde encontrei amigos das antigas, amigos teatrais e só amigos. A segunda foi na bagaceira da Queens, dancei um pouco com a galera e conheci um carinha de Juiz de Fora chamado Leonardo. Papo vai, papo vem, ele veio dormir aqui em casa. Ao acordar assistimos juntos "O Homem do Ano". Na minha modesta opinião vi ali a melhor atuação de Murilo Benício. Ele continua com os esgares característicos, aquela voz num falsete estranho está mais controlada, o que há é uma composição de personagem bem urdida, bem delineada que o catapulta à galeria de tipos inesquecíveis do cinema nacional.
O Leonardo que não é o Di Caprio adorou o feijão de Tia Célia, comeu a se fartar e foi-se para a cidade de Nossa Senhora das Candeias onde mora. Ficou de ligar qualquer dia desses para um passeio de transatlântico...
JoHnNy::[15:41]
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Sábado, Abril 17, 2004
savoir vivre
Fui acometido novamente de coriza no nariz, só pode ser rinite. Espirros vieram como gafanhotos na praga do Egito, tanto, mas tanto que passando de moto e espirrando ouvia as pessoas gritarem: "saúde!", "a coisa tá braba, hem?", "toma num-sei-que-lá!". Eu ria, aliás, essas manifestações do povo brasileiro, especialmente baiano, me ufanam, enchem de orgulho e me fazem crer que o ser humano pode sempre ser melhor. Falo de espontaneidade, de enxergar o outro e se comunicar, da graça entre anônimos desconhecidos. Todo mundo anda tão fechado em si mesmo. Quarta-feira foi o pior dia, a vontade que eu tiinha era de arrancar esse narigão do meio da face e atirar longe numa lixeira, numa vala comum, para ele definhar como um nariz sem pátria, sem par, sem ninguém. Parecia um canal de onde só saía água, todo tempo aquele líquido escorrendo e a cabeça pesada. E a quantidade de espirros? Eu detesto espirrar, sou escandaloso, faço uma performance digna de contorcionista quando espirro...
Mesmo nessas condições o deus Eros mandou um recado do Olimpo para que este mortal aqui fosse à sua morada e eu fui...
Na quinta-feira já estava um tanto melhor. Fui assistir a um espetáculo de dança do Núcleo de Investigação Coreográfica, "Monólogos para Alguns Corpos", a música me impressionou muito, os movimentos exaustivamente repetitivos não.
A sexta-feira me trouxe uma grata surpresa, uma visita de Bruno no fim da tarde. O moço bonito me disse coisas em tom de brincadeira que me fizeram refletir. Ele é mais um que diz que passo essa imagem de bon vivant, de quem não quer nada com ninguém, disse até mais, mas me furto em repetir aqui.
Já no show de Vânia Abreu e Ivan Lins na Concha Acústica, rodeado de amigos, comentei com Manoel sobre a opinião de Bruno. Manoel que me conhece há mais de 20 anos se limitou a dizer: "Você apenas sabe viver..."
JoHnNy::[03:07]
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Sexta-feira, Abril 16, 2004
feitio de oração
"Ó garrafada das ervas maceradas do breu das brenhas/ Se adonai de mim e do meu peito lacerado/ Ó Senhora dos remédios/ Ó doce dona/ Ó chá/ Ó ungüento/ Ó destilado/ Ó camomila/ Ó belladona/ Ó pharmakon/ Respingai grossas gotas de vossos venenos/ Ó doce dona/ Ó camomila/ Ó belladona/ Serenai minhas irremediáveis pupilas dilatadas/ Ó Senhora dos sem remédios/ Domai as minhas brutas ânsias acrobáticas/ Que suspensas piruetam pânicas nas janelas do caos/ Se desprendem dos trapézios e tontas buscam o abraço fraterno e solidário dos espaços vácuos/ Ó garrafada das maceradas ervas do breu das brenhas/ Adonai-vos do peito lacerado e do lenho oco que ocupo"
poema de wally salomão interpretado por maria bethânia no cd cânticos, preces, súplicas à senhora dos jardins do céu
JoHnNy::[12:04]
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Quarta-feira, Abril 14, 2004
memorare
Engraçado como os mecanismos da memória atuam. Às vezes uma canção que escutamos traz à tona imagens e situações que vivemos, outras vezes do nada vem a lembrança de coisas vividas e junto com ela a saudade. Ontem, ao passar diante de um certo prédio lembrei de um simples gesto de um complexo alguém. O jogar as chaves do alto para que eu pudesse abrir a porta. Pensei nele com carinho. Lembrei dele com vontade de reafinar o coro. Sabendo que fui o causador maior da ruptura. Soltei alto enquanto passava uma frase delicada. Para que eu mesmo ouvisse, mas meu coração não. Outro dia me peguei lembrando do Oren, do nosso passeio rumo ao museu Van Gogh, das compras de vinho no supermercado. De uma noite em que voltávamos de bicicleta para seu loft, fazia um frio cortante enquanto eu cantava "Desafinado" que ele só tinha escutado antes pela voz do George Michael.
Creio que preferiu a minha versão, várias vezes tive que cantar para ele ouvir. Posso me gabar de possuir uma ótima memória, lembro com detalhes fatos da minha infância e outro dia como exercício numa aula de teatro pedi aos alunos que relatassem o fato mais remoto guardado na memória. Ouvimos coisas interessantíssimas, alguns depoimentos foram emocionantes, outros engraçados. O que lembro de mais antigo é o nascimento da minha irmã Nelci. Quando ela nasceu eu tinha 2 anos e 5 meses e recordo que o meu pai tomou a mim e ao meu irmão e saímos a passear em direção à estátua da santa padroeira da cidade em que nascemos. Se fechar os olhos posso ver a cena em toda sua nitidez. A cor da roupa que vestia, a mão do meu pai segurando a minha mão, o entardecer naquela praça e o burburinho em casa ao redor da nova criança cada vez mais longe. Isso tudo resta agora como lembrança em minha memória, meu pai e meu irmão se foram prematuramente para outro plano da existência há algum tempo, não tenho com quem me certificar com exatidão o que vivemos. Mas é essa tarde, o passeio do pai com seus dois filhos o que de mais antigo eu guardo na memória. E você? O que de mais remoto você pode se lembrar?
JoHnNy::[03:25]
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Terça-feira, Abril 13, 2004
céu, chuva e cor
Chove nessa terra ensolarada, frio que é bom nenhum. Chove tanto que impede que eu me desloque pelas ruas em meu veículo de duas rodas que atende pelo nome de Kinski. Tadinha dela e ainda mais de mim. Ontem não fui dar aula por conta dos pingos que desciam do céu e do meu nariz. Não é gripe, é alergia. O final de tarde foi de uma beleza soturna. As nuvens manchadas davam o tom e a cidade inteira mudou de cor. Quero ver a Daniela dizer aos quatro ventos que a cor dessa cidade é ela. Coisa nenhuma. Nunca foi. Essa cidade é negra, morena, nigérrima. Por isso mesmo traz uma beleza sem igual. Há aqui nessa seara santa uma cor ímpar. E o céu entre tonitruante e belo revelava isso, parecia um outro lugar. Um céu plúmbeo daqueles que raramente se vê por aqui. Choveu, chovia e chove um pouco agora enquanto escrevo. Mas frio que eu gosto não tem. Frio é ótimo para dormir, enrolar-se nos lençóis, de preferência a dois. Vestir roupas mais quentes, beber vinho, acender velas. Namorar. Nada melhor que namorar no frio. Como não há frio nem namorado, resta admirar a chuva e pedir trégua ao céu quando precisar sair.
JoHnNy::[00:11]
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Segunda-feira, Abril 12, 2004
domingo com Yma
Da casa da mãe voltei para Salvador com Mariuna até Stella Maris, ela preparou um peixe com molho de camarão e alcaparras, fomos à praia de Catussaba andando, tiramos umas fotinhas e de posse da kinski voei para a cidade, porque vamos combinar que passando de Itapoã já estamos em outra cidade. Recebi uma ligação de um amiguinho virtual e programamos uma ida a um barzinho. Gosto desses programas que você não sabe no que vai dar. Peguei Deko em sua casa e fomos circular por aí. O garoto é bem interessante, conversamos um bocado, até que deu sono e deixei-o são e salvo. Mas ainda era cedo para um notívago célebre como eu. Dei uma passada na Barra e de longe pude ver a mesmice no Beco da Off, as mesmas pessoas com suas caras de "sábado-à-noite-eu-quero-ferver-e-minha-única-opção-é-isso-aqui". Não, toda semana não, por favor! Fui ver o que acontecia no Beco dos Artistas. Encontrei uns amigos, tomei uma cerveja, a opção era assistir uma apresentação de sexo explícito na Queens, mas achei que era demais para um sábado de aleluia em plena semana santa. Preferi ir pra casa, no caminho passo pelo blogueiro moreno. Isso de encontrar blogueiros casualmente pelas ruas já me trouxe problema. Melhor respirar fundo e seguir adiante.
Digo isso, mas ontem li o blog inteiro do rapaz, quando eu digo inteiro é inteiro mesmo!
O domingo passou arrastado, dei uma circulada com Jéo, fomos à sorveteria Cubana, tomei um big sorvete de manga e umbu. Sou fissurado em sorvete de frutas tropicais. Depois visitamos Léo que está convalescendo na casa de Giácomo (ai! ai!) na Barra e dei carona a Mary Help.
À noite fui pesquisar sobre Yma Sumac, tem pouca coisa sobre ela na internet em português, mas descobri que se apresentou no Brasil em 1959 no Teatro Guaíra. Yma Sumac é uma cantora peruana descendente do último rei inca, conseguia atingir seis oitavas com a voz, coisa raríssima no mundo. Dizem que ela estava lavando roupas num lago dos Andes quando um produtor americano passou sobrevoando a área e ouviu aquela voz maravilhosa, mandou o avião descer e levou a moça para se transformar na diva dos trinados. A primeira vez que ouvi falar sobre ela foi há uns 15 anos atrás. Eu era um adolescente curioso e conheci um professor chamado José Carlos, excêntrico até a alma, só come tudo cru, inclusive carne. Ele morava na estrada velha do aeroporto, numa casa no meio da mata atlântica que ainda existe por ali. Nenhum carro vai até a porta, tem que parar uns 100 metros antes e ir andando. Andrezinho havia dito que ele possuía vários lp's da Yma Sumac e fomos lá comprovar e assim conhecemos e ficamos impressionados com o poder da voz dessa mulher. Nesse dia o José Carlos almoçou apenas uma imensa melancia...
Achei umas músicas no kazaa e passei a noite de domingo baixando e ouvindo Yma, assim deixo Nina Simone um pouco em paz.
JoHnNy::[13:42]
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Domingo, Abril 11, 2004
sexta-feira nada santa
Toda a família se juntou na sexta-feira santa na casa de Mainha em torno do seu famoso vatapá. Minha querida mãe há de perdoar esse comentário a seguir, mas o seu famoso vatapá não é mais o mesmo. Mariuna teve que dar um help no momento final da tão trabalhosa iguaria, acrescentando mais camarão, amendoim e castanha. Aliás, fiz esse comentário lá mesmo na cozinha. Mainha alegou que era a idade. Retruquei que não era nada disso, Mainha tem 61 anos, Mariette do alto de seus quase 81 ainda manda bem no seu também famoso vatapá. Claro que é Rita, sua fiel escudeira, quem mexe o panelão, mas sob a supervisão acurada de Mariette. Acho que está faltando a Mainha mais concentração, ela faz muita coisa ao mesmo tempo enquanto cozinha e assim perde o prumo. A tradição da nossa sexta-feira santa está seriamente ameaçada...
Em alguns momentos me peguei pensando em como essa família desvirtuou o significado desse dia, não havia nada de religioso ali. Mesas no quintal, a cerveja rolando solta, comida, música, gente que chegava e saía que mais parecia a comemoração do aniversário de alguém. Nenhum sentimento que lembrasse um dia para reverenciar Cristo. Não é hipocrisia minha, afinal eu estava ali na maior bagunça, mas esses pensamentos me assaltaram a mente enquanto cantava.
Nelci, minha irmã, comentou isso. Pra mim a melhor parte foi estar perto dos meus sobrinhos que vivem em Feira e com quem tenho pouco contato: Pietra, Catharina e Pedrinho. Esse último dono de uma boca maravilhosamente vermelha. As meninas, duas fofas tagarelas. Me empanturrei de chicletes com as crianças e fui dormir assistindo Leonardo e Winslet naufragando com o Titanic.
JoHnNy::[02:51]
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Sexta-feira, Abril 09, 2004
dias transitórios
Fui ver a Paixão de Cristo no dique, o espetáculo que fiz ano passado, esse ano não dei conta de fazer. Só constatei o que já sabia, é ruim de doer, valeu à pena na época pela grana. Estou duríssimo, mas assistindo senti um alívio de não estar ali compactuando com aquilo. É de uma breguice atroz, infame até.
São dias cristãos, mas ando como um fariseu, tenho aprontado algumas com a libido à solta e não me arrependo de nada...
Silvana ligou e fomos tomar umas num bar antes d'eu me jogar na night. Conheci Lucas Jerzy, um dos colunistas do site Iguais, onde também escrevo e ele além de falar rápido demais, me pareceu sagaz e inteligente.
Sim, entrei mais uma vez na Off e véspera de feriado havia pouca gente de fora. Fauze Haten q volta e meia dá as caras por aqui chacoalhava o corpinho vestido num modelão branco. Alguns conhecidos por lá, quando enchi o saco voltei pra casa do mesmo jeito que entrei, são e salvo.
Encontrei um moreno blogueiro com quem troquei algumas palavras. Na verdade queria ter trocado algo mais, mas acho que não faço a dele, sei lá... Quem sabe algum dia desses dias transitórios...
JoHnNy::[05:10]
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Quinta-feira, Abril 08, 2004
dançando no escuro
Ontem assisti a um lindo por de sol na balaustrada do Porto da Barra. A praia vazia, poucos banhistas (em sua maioria gringos) e aquela luz outonal meio sépia transformando a paisagem numa visão quase etérea. Deixei a kinski de lado e fui andar um pouco, respirar o ar ainda puro da brisa marinha, encontrei um amigo malhando nas barras e um outro que iria correr até Ondina. Um deles me convidou a acompanhá-lo, mas como sou um hamster, prefiro correr na esteira da academia, além de mais seguro sinto que controlo melhor a atividade.
Depois da malhação, subi para a aula de boxe. E haja socos no ar, gancho de esquerda, jeb, direita, jeb, ape, num-sei-o-q-mais, é tanto golpe que você sai com a adrenalina lá em cima querendo dar porrada em quem encontrar pela frente! hehehe
Mas saí da academia e fui ao cinema ver, enfim, "Dancer in the Dark", o filme do Lars Von Trier com Bjork. Na época amigos e conhecidos viram e cada um falava uma coisa, a maioria gostou muito, mas fui adiando, adiando, adiando e acabei não vendo. Agora a Sala Walter está exibindo e mesmo suado não quis perder a oportunidade de ver o filme em tela grande.
É um drama musical com todas as características dos filmes de Lars Von Trier, inclusive a crítica ácida em cima dos Estados Unidos. Por isso mesmo só teve uma indicação ao Oscar de melhor canção, enquanto ganhou melhor filme e melhor atriz no Festival de Cannes.
Gosto do jeito que ele peita os americanos, tem conteúdo e lastro. As cenas musicais são divertidas e tem Bjork cantando, aliás a interpretação dela é fantástica. O filme só fica até amanhã, quem nunca viu, corra pra ver!
JoHnNy::[14:08]
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Quarta-feira, Abril 07, 2004
fragmentos
5
Sei o puldo das palavras a sirene das palavras
Não as que se aplaudem do alto dos teatros
Mas as que arrancam caixões da treva
e os põem a caminhar quadrúpedes de cedro
Às vezes as relegam inauditas inéditas
Mas a palavra galopa com a cilha tensa
ressoa os séculos e os trens rastejam
para lamber as măos calosas da poesia
Sei o pulso das palavras parecem fumaça
Pétalas caídas sob o calcanhar da dança
Mas o homem com lábios alma carcaça.
(traduçăo: Augusto de Campos)
livros & paixões
Já fui um bom leitor um dia, caro leitor. Quando entrei na faculdade aos 17 anos se descortinou para mim um mundo de autores que até então eu só conhecia de nome. Eu vivia lendo, a coisa mais comum era me encontrar com algum livro nas mãos. Certa vez na falta do que ler em casa comecei a folhear a bíblia e me deparei com trechos interessantíssimos, principalmente o exagero de adjetivos na descrição do fim dos tempos. Foi o suficiente para a minha mãe se preocupar deveras comigo. A biblioteca da faculdade era imensa, ainda é, e lá pude ler os primeiros livros do José Saramago que tanto aprecio. Praticamente devorei "Memorial do Convento" e volta e meia me pego lembrando da capacidade de Blimunda em enxergar o interior das pessoas. Li contos de Guy de Maupassant, um misógino e divertido escritor francês, um tanto embolorado mas precioso. Tive um affair na época que era aficcionado de Guy e por conta dele lembro que num verão em Arembepe Maupassant foi meu companheiro nas tardes de sol diante do mar. Os primeiros livros de João Ubaldo são dessa época, confesso que tinha um certo preconceito porque lia as colunas que ele escreve nos jornais e não gostava, não gosto até hoje, mas João Ubaldo é um Jorge Amado infinitamente superior, traz o estilo barroco baiano no derrame das palavras. Jorge Luís Borges conheci pelas mãos de uma paixão, minha primeira grande paixão. Esse escritor argentino e sua fixação por labirintos ficou intimamente ligado à essa época da minha vida. Já Maiakóvski conheci no período politizado do início da faculdade, lê-lo assim como a Brecht, dava um ar de socialmente comprometido com a causa. Não sei que causa, mas dava um certo charme...
O poema acima, "Fragmentos", é composto de 5 partes, essa palavra puldo que pensei que fosse um errinho de grafia do site onde encontrei o poema consta em todos os outros que visitei. Fui a três dicionários (Aurélio, Michaelis e Larousse) e não achei o significado de puldo. Onde será que Augusto de Campos encontrou essa palavra? Será que ela existe mesmo?
Muitos escritores e seus livros entraram em minha vida, algumas poucas paixões também, mas depois da internet confesso que ando negligenciando do hábito de andar com um livro embaixo do braço. Agora estou lendo "Malu na Bicicleta" do Marcelo Rubens Paiva e hoje num teste para uma produtora de vídeo tive a cara de pau de responder a quem me perguntou se eu tinha algum texto memorizado que sim e no momento da gravação desatei a dizer uma passagem do romance em que o protagonista encontra com Malu numa calçada a caminho do analista e esbarra nele em sua bicicleta...
Os livros são assim, companheiros até nessas horas mais improváveis.
JoHnNy::[02:53]
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Terça-feira, Abril 06, 2004
coisa com coisa
Uma sensação iminente de que algo de muito bom vai me acontecer. De que vou esbarrar por acaso com a pessoa que me encherá de beijos na noite ou de que posso vir a ganhar muito dinheiro de repente. É bom sentir isso, invariavelmente quando saio para o dia e subo a ladeira que liga a minha rua à avenida Cardeal esses pensamentos vêm. Não duram muito, eu sei, mas é bem melhor que deixar o pessimismo rondar a mente.
A segunda-feira veio sem surpresas, na verdade ando um tanto melancólico, ouvindo Nina Simone, descobrindo canções da musa que não conhecia, escarafunchando antigos CD's. Falta remexer nos papéis, destiná-los ao vento.
Dei aula à tarde. Coisa rápida. Preciso me ocupar mais. Ter idéias, correr atrás de atividades rentáveis. Hoje tenho um teste numa produtora, mas parece que é apenas para registro de atores. Coisa corriqueira. As finanças andam bagunçadas, apertadas, conta corrente no vermelho. Coisa geral.
Fiz um pequeno tour cultural na noite: Uma performance de dança sobre a vida de Cristo no Dique, revi Rino rapidamente por lá e tentei falar com Binho q, ocupado, me ignorou solenemente. Sequer um sorriso. Ele que não me venha com desculpas que estava trabalhando, bastava um "Oi Johnny". Saí de lá decepcionado tanto com a falta de carinho do amigo quanto com o resultado do q vi. Depois dei uma passada rápida em casa para um banho (estava suado da malhação) e me aparece Márcio Tatoo que veio assistir "Gladiador" na TV. Deixei-o só e pilotei até o Teatro Jorge Amado. Lá, outra performance sobre portas e janelas para uma exposição de artes plásticas. Duas alunas faziam a leitura do texto. Alguns abraços e retornei resoluto para casa.
JoHnNy::[01:24]
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Segunda-feira, Abril 05, 2004
águas virtuais
Acordei bem tarde ontem com um gosto de cabo de guarda-chuva na boca. Nana me disse q era pra beber muita água pois o álcool que havia em meu sangue diminua o aldeído q vem a ser uma enzima que num sei q mais, lá, lá, lá. Daí nem esperei o resto da explicação científica e tomei logo uns três copos d'água. Depois uma boa caneca de café com leite e pilotei a toda até a praia de Stella Maris. A chave da casa de Mariuna estava com a vizinha. O feijão ainda quente desceu como um bálsamo para meu estômago vazio. Satisfeito, vou até a barraca Quinto Sol, point dos surfistas, mas não havia mais ninguém lá. A família retornara para casa.
No quintal, Mainha lavava os caranguejos que seriam devorados logo depois. Não gosto de comer esses pobres bichos, afinal de contas sou caranguejo na astrologia e não pega bem comer a mim mesmo...
Passamos o resto da tarde e boa parte da noite bebendo, cantando e dançando ao som de violão e pandeiro. Voei para casa e atravessei a noite navegando nas águas virtuais da internet.
JoHnNy::[02:43]
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Domingo, Abril 04, 2004
no limits
Eu fico me perguntando porque ainda cometo certos deslizes, há algo de masoquismo nisso, tem que ser. Já disse várias vezes que aos sábados eu não me jogaria mais naquele antro da perdição chamado Off Club. E ontem depois de perambular pelo níver de Ciça no Pelourinho, q foi ótimo, ainda passei na casa de Jéo e dei carona a ele para uma barraquinha no Parque Júlio Caesar onde tava rolando um set de Ariel e Fabrício Dili e onde ele mesmo daria uma canja. Só na Bahia mesmo para uma barraquinha no final de uma rua encher de gente para ouvir música eletrônica... Isto posto, corro ao Aeroclube para assistir à última meia hora do show da Paralelo4, cujos vocais pertencem ao meu lindo irmãozinho, Ninho. Não satisfeito e querendo diversão mais hard me dirijo à Barra e 3:30 da matina adentro a boate. De cara vejo Rony bêbado, acompanhado de uma mulher gordinha e dizendo que tinha perdido 50 paus. Vamos ao banheiro, entramos num box, ele tira toda a roupa para descobrir onde está a nota, nisso batem na porta. Rony grita: "Tem gente! Quer gozar? Vá em outro lugar!!!" O dinheiro está num dos bolsos da calça. Ao sair do box me deparo com uma fila de umas trinta bibas conhecidas da night.
Isso já era um sinal suficiente para eu ir embora, mas ainda insisti um pouco mais. Encontro Luíse e Holden dançando, um oásis naquele deserto. Sábado definitivamente é um dia para não se ir a Off. Resolvo pagar logo o cartão antes que a fila aumente. Encontro Jéo que retornava da Pituba, dou carona mais uma vez e no caminho para casa vemos um rapaz sarado de sunga vermelha passeando rumo à praia às 5 horas da manhã. Paramos a moto e charlamos um pouco com o moço. "Isso são horas de se ir à praia, rapaz?". Deixo Jéo em casa e ainda invento de circular mais um pouco. Tem uma hora que um homem deve saber o seu limite.
Volto pra casa e durmo semi embriagado.
JoHnNy::[14:17]
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Sábado, Abril 03, 2004
sabatina
Vou dormir embalado pela voz de Nina Simone cantando "Sunday in Savannah", quase como um mantra a canção vai sendo sussurrada em meu ouvido, o corpo vai reagindo, entrando no balanço, uma lassidão se apossa de mim e de repente o sono vem...
Dei uma chance a Denzel Washington e me pus a assistir a bobagem de seu último filme, "Out of Time". É um desses thrillers que se pretende cheio de surpresas, mas acaba sendo de uma previsibilidade idiota. Um policial na tórrida Miami q se envolve com uma mulher escroque, tem pouco tempo para resolver as pendengas que o incriminam e no final tudo acaba bem. Surpresa mesmo é rever o Dean Cain, aquele ator q fazia um seriado do Superman na telinha da vênus platinada todas as quartas-feiras. Ele faz um vilão. Agora está mais velho e corpulento, o que não o desabona, muito pelo contrário, a passagem do tempo só lhe fez bem. Mas isso só não vale o filme, alías não creio que mereça ser exibido nem na insossa Tela Quente...
Enfim, valeu pela pipoca que estava quentinha e foi de grátis!
Logo mais à noite tem o aniversário de Ciça no Pelourinho. Gente boa vai se reunir em torno da amiga. Saúde e energia é o que desejo para ela que conheço desde a adolescência. Ciça é uma morena linda que nasceu na praia de Jacuípe, viveu em Camaçari e Salvador, depois Madrid e Sevilha. Retornou para a Bahia e hoje é uma disputada guia de turismo, mãe da deliciosa Naira e irmã da gostosa Nem. Esse trio de mulheres é como se fosse da minha família. Por isso estarei lá para beijá-las.
Amanhã tem a feijoada do Thiago no Beco dos Artistas a partir do meio-dia.
Não esqueçam!
A da semana passada tava de-li-ci-osa!
(Tem coisa mais gay que dividir uma palavra assim em sílabas?)
JoHnNy::[04:29]
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Sexta-feira, Abril 02, 2004
Ou não?
Os telefones me acordam, é celular tocando, é o fixo na sala me obrigando a levantar. O que fazem as pessoas ligarem para a casa de alguém às 9 e 30 da madrugada? Insanidade? Falta do que fazer? Ah, vão ler um bom livro na varanda ou fuçar a net no trabalho, mas deixem um pobre ator desempregado dormir até mais tarde e sonhar com a ribalta. Hoje acordei no meio de um sonho onde uma amiga, aliás uma conhecida, que não consegui identificar (!), sei q era negra e de muita personalidade. Moradora do Rio Vermelho, reclamava que um amigo entrava em seu apartamento e roubava um beck. Pela descrição dela o beck era quase um rojão de tão grande. O apartamento, daqueles antigos, como se vê nas ruas internas do Red River estava absolutamente vazio, segundo a amiga seria ocupado por um novo inquilino. Ela era a proprietária e dissera que nunca mais alugaria para a gente de teatro. "São arruaceiros e mal pagadores". Ô raça! Eu que não sou nem mal pagador nem arruaceiro acordei ao som da voz de Márcio Tatoo, um brodér que dormiu aqui em casa, apreciador de um bom beck e deve ter me acordado para saber se essa amiga do sonho não tinha nada para lhe oferecer...
Voltei ontem à academia. À tarde dei uma aulinha teatral e depois dei uma passada rápida para um mergulho no Porto da Barra.
Encontrei a turma da fogueira reunida. Nas areias umas esculturas imensas feitas de tonéis de água. A exposição estava no fundo do mar e podia ser vista através de mergulho com equipamento e acompanhada por um instrutor. Deve ser a primeira exposição de artes plásticas do mundo feita embaixo do mar. Ou não?
JoHnNy::[10:44]
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Quinta-feira, Abril 01, 2004
la vien en Rose
E a viagem ao Recife gorou, acabei de ficar sabendo, foi transferida para a semana que vem. E eu que estava pensando em ver o show do Pet Shop Boys no domingo por lá... Binho, q está num evento da semana santa na capital pernambucana acaba de me ligar e reclama da mania absurda que o povo de Recife tem em achar que tudo lá é o maior do Brasil. E eu pensava que era em Itu essa paranóia, mas há uma explicação: Em Itu as coisas realmente são grandes, em Recife o povo pensa que é! hahaha
Mas eu já tinha escutado isso de mais pessoas, mas quero ver in loco.
Ontem fui ao cinema com a amiga Mariette, um tempão que não fazíamos um programa cultural juntos. Assistimos "Alguém Tem que Ceder" com Jack Nicholson e Diane Keaton. O que mais me chamou a atenção foi a trilha sonora. Muito jazz com sotaque de bossa nova. Tem Flora Purim cantando "So Nice", tem Ary Barroso numa instrumental com "Aquarela do Brasil" e quem esperar toda a lista dos créditos ao final terá a surpresa de ouvir mister Jack cantando "La Vien en Rose" de um jeito sensual e convincente.
JoHnNy::[11:38]
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