Sexta-feira, Novembro 13, 2009
quando nem sempre se é aquilo que se parece
Mariene de Castro, algum tempo atrás, era para mim apenas um enorme engodo que uma parte da mídia baiana resolveu abraçar catapultando-a a condição de promessa do samba baiano. Já vi muitos dos seus shows, inclusive em começo de carreira e me perguntava o que aquele ser híbrido de Clara Nunes com Maria Bethânia pretendia. Via nela pouca coisa, além de um arremedo da saudosa Clara, copiando figurino, jeito de cantar, inclusive os rodopios, copiados de coreografias dos antigos video-clips, chegando a ruborizar fãs da mineira que ficaram indignados com o que consideraram sacrilégio. Argumentei, na época, a título de ponderação, que os rodopios eram parte da dança do samba de roda do recôncavo, de onde a moça parecia vir, até assistir uma gravação de Clara para o Fantástico e concordar com os fãs que ali estava mesmo uma bela forçada de barra.
E como argumentar em relação aos arroubos e a postura de cena à La Maria Bethânia? Convenhamos que se mirar em duas figuras musicais por demais características é uma coisa, mas simplesmente chupá-las, aí já é mais complicado. Considerei uma tremenda ingenuidade da artista, para não dizer burrice. O que não é o caso de Mariene, pois de burra ela não tem nada. Tempos depois fui assistir a um show dela dirigido pelo ator Ricardo Castro no teatro do Sesi Rio Vermelho. Saí de lá um tanto aborrecido, mas feliz. A minha expectativa era que o talentoso Ricardo conseguisse desvencilhar Mariene de seu propósito de imitar as cantoras que admirava. Ele conseguiu em parte. Lá estava ela toda dirigida, até mesmo exageradamente amarrada às marcas da direção, mas imprimiu ali, pela primeira vez, um jeito próprio de cantar e se portar no palco. O engodo estava se desfazendo.
Outro episódio que marcou a imagem que tenho dela foi num show da Concha, que acontece todos os anos em janeiro, para celebrar a cidade de Santo Amaro. Nessa época, Mariene era casada com o neto de Dona Canô, Jota Veloso, sobrinho de Caetano e Bethânia. Nessa ocasião, pela primeira vez, a matriarca dos Veloso não pode comparecer e diante de uma Concha Acústica repleta de quase quatro mil pessoas, Mariene pediu que todos rezassem por Dona Canô.
Naquele momento fez-se um burburinho ruidoso e o boato era de que a vetusta senhora teria falecido. Ledo engano. Dona Canô não comparecera porque estava indisposta com uma dor de cabeça. O fato é que quatro mil pessoas rezaram um pai nosso para Dona Canô, a pedido de Mariene, que satisfeita com a homenagem ou a puxação de saco, recebeu logo em seguida, dentro do camarim, uma enorme bronca de Caetano que esbravejou para quem quisesse ouvir:
- Olha aqui, menina, não fique querendo se promover à custa da minha mãe não!
E o restante da conversa não será reproduzido aqui porque a minha fonte afirma que não foi, digamos assim, um papo dos mais amigáveis.
Logo em seguida, Jota Veloso foi ao Rio pedir a Bethania um apoio financeiro para a carreira de Mariene, na época além de marido, ele era seu produtor, no que a abelha rainha se negou dizendo a Jota que para aquela menina não tinha apoio nenhum. Ainda assim, como é conhecida a sua generosidade, é possível assistir a aparição de Mariene numa gravação no quintal da casa de Santo Amaro no filme Pedrinha de Aruanda, sobre a vida de Bethânia, dirigido por Andrucha Waddington e lançado em 2007.
Hoje, Mariene já tem uma estrada percorrida, aqui e ali ainda evoca alguns sinais de Clara ou Bethânia, mas cada vez mais se distancia dos seus ídolos, encontrando um jeito próprio de cantar os sambas do recôncavo e especialmente quando entoa as criações de Roque Ferreira, aí se revela uma cantora interessante. O que ela precisa aprender urgentemente é a não repetir o repertório em shows por tanto tempo, basta ir aos ensaios de verão toda semana que é possível dizer de cor, e na ordem, a lista das canções. Outra coisa que sempre ouço reclamarem dela, embora a mim não faça falta nenhuma, é que precisa aprender a ter mais carisma no palco, mas isso daí não se aprende. Ou se tem ou não, porque carisma não dá pra copiar. Ou dá?
JoHnNy::[04:41]
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Quinta-feira, Outubro 22, 2009
suave como um trator
Não, eu não li O Segredo, nunca fui fã desses livros de auto-ajuda, mas desde pequeno sempre fui de mentalizar o que queria. E, quando criança, sempre ganhei fácil os presentes que quis no Natal ou aniversário, sempre conquistei os amigos e namoradinhas que desejei, sempre realizei os meus sonhos. Conjugo no passado, porque tem um momento aí da minha vida que acho que deixei de desejar com afinco e de correr atrás mesmo, de verdade, das coisas que queria e dos sonhos. Continuo fazendo o que gosto e o que acredito, mas sem aquele brilho dos olhos de menino. Ou eu cresci na contramão de mim mesmo ou foi a minha garra que se tornou menor. Na verdade, o desejar de um adulto vem agregado a tantos e intrincados ônus que quando o bônus chega a diferença entre a alegria pueril e o novo olhar de gente grande é avassaladora.
E sou daqueles que acreditam em poder de mentalização e na sobrevivência da criança interior. Acredito, mas percebo que nunca foi o bastante para me caracterizar como praticante de religiões, cultos, algo que exija uma disciplina mental ou física. Outro dia uma amiga me ensinou um mantra e disse para realizá-lo várias vezes ao dia. Tenho feito, assim como sempre rezo o Pai Nosso, desde criança, que para mim funciona como um mantra. Esse mantra da minha amiga, tem me feito enxergar possibilidades de mudança do padrão mental. Coincidência ou não, há algo diferente acontecendo na energia do que o mantra evoca. Ainda não posso falar muito, até porque essas coisas precisam mais ser sentidas do que reveladas.
Só que não é sobre nada disso que quero escrever aqui. Aliás, escrever aqui se torna a cada dia menos constante, estava olhando os arquivos e relendo passagens do que já escrevi e pensando como era necessário contar meu dia, falar de pessoas que conheci, filmes e peças que vi e até passagens íntimas que hoje nem por decreto presidencial sou capaz de narrar.
Hoje me ocupo mais com o facebook e o twitter, acho que é porque se escreve menos, o retorno de quem te lê é mais rápido e assim é como na vida. Tudo rápido, relações fast food e vamos nessa!
O motivo desse post era comentar sobre um trabalho de teatro que fiz para o Polo Petroquímico essa semana e que me deu, literalmente, altas dores de cabeça, mas acabei mudando o assunto. Acho que essa odisséia ficará para um próximo momento.
Talvez com a distância histórica dos fatos eu pegue mais leve no que vou contar. Voltarei suave. Ou não.
JoHnNy::[12:09]
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Quinta-feira, Outubro 08, 2009
money, summer e outros bichos
Então é fato, já estamos em outubro e o verão se aproxima. Tempo de ócio, de gastar dinheiro, de viajar, de ir a todos os ensaios e festas que pululam nessa cidade inquieta. Esse foi um ano, assim pode se dizer, porque ele praticamente já se finda, onde o que menos se viu foram estréias nos teatros e onde o povo teatral menos trabalhou. Comigo também foi assim, se no ano passado, nessa época, eu estava em quatro produções diferentes, em escolas, empresas e no palco, amealhando o dinheiro que me levaria em janeiro e fevereiro para Curitiba, Buenos Aires e Montevidéu, esse ano estou em apenas duas que a contar pelo dinheiro me levaria no máximo a Aracaju. Isso para ficar hospedado na casa de Beto e Celso, porque para pagar hotel nem daria!
Essa coisa da instabilidade financeira do artista não é novidade, há épocas onde o dinheiro abunda e há épocas onde tomamos na bunda!
2009 está sendo um ano onde estamos levando ferro grosso e não estamos sorrindo para isso.
Além do pouco investimento do governo atual no cenário artístico, ainda que eles insistam em dizer o contrário, considerando a nossa importância, haja visto que a Bahia é celeiro produtor de artes desde que Cabral aportou por aqui, as empresas também se retraíram, as escolas fizeram o mesmo e com isso o campo de trabalho reduziu-se bastante.
Essa semana recebi um telefonema de uma produtora para a montagem de uma performance para uma empresa, fui munido de uma caderneta e muitas idéias, ela quer um produto diferenciado, disse que as empresas estão cansadas da mesmice, acenei com uma novidade e quando fui saber o cachê, a vontade foi de levantar da mesa e dizer tchau, passar bem!
Só que diante da crise, reduzi o tempo do trabalho, guardei no bolso as possibilidades e farei algo mantendo a qualidade, mas sem grandes vôos, afinal, o meu trabalho tem um preço e não é barato. Infelizmente não posso ficar de braços cruzados. O duro é nessa altura do campeonato ter que ouvir que tudo é uma vitrine, as pessoas vão te conhecer e te chamar mais, sei o quanto você é bom e todo blá blá blá que produtor costuma dizer quando quer arrancar algo de você!
E se eu dissesse não, ainda assim, teria alguém ali adiante para fazer pela metade! Isso eu ouvi da produtora e ela ainda citou nomes.
De qualquer modo, chamarei uma colega teatral, talentosa e divertida, que está precisando muito trabalhar, vou dividir com ela esse cachezinho abençoado, com ele faremos umas compras, gastaremos com alguma coisa ou pagaremos umas contas. E torceremos para que outros cachês venham em abundância, afinal o verão vem aí e quem viver verá! E gastará!
E.A.D.C.U.I. !!!
JoHnNy::[00:35]
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Terça-feira, Setembro 29, 2009
vivendo e apreciando
O tempo de fúria aparentemente cessou na cidade da Bahia. Na verdade, na verdade queimaram um ônibus outro dia, mas isso está se tornando tão banal que ninguém se importa mais. Tenho ido a muitos shows, peças, eventos e que tais, sem saco e sem vontade de comentar por aqui, mas o que mais me indignou foi não comer um caruru ontem no dia dos santos gêmeos. Tinha até um convite, mas era lá onde o vento faz a curva e não me animei de pegar a motoca e ir conferir!
Esse post é só pra dizer que estou vivo e de olho aberto pro mundo.
Volto logo mais para contar tudo que sei. Ou não!
JoHnNy::[00:57]
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Quinta-feira, Setembro 10, 2009
tempo de fúria na cidade da bahia
Nos últimos dias Salvador virou uma praça de guerra entre a polícia e os traficantes. O que se vê a todo momento são ônibus queimados, postos policiais metralhados, militares e marginais alvejados, tudo isso em plena luz do dia! E no meio de toda essa algaravia nefasta o povo indefeso. Medo, pânico, estado de desolação. É aquilo que se pode chamar de riodejaneirização da Bahia.
Há muito que a escalada de violência vem crescendo em nosso estado. Não se pode culpar exclusivamente o governo atual por isso, mas há sim uma grande parcela de culpa dos atuais governantes para que a barbárie tenha chegado a esse índice alarmante. Polícia desaparelhada, mal estruturada, um completo descaso com a segurança pública é visível nos últimos anos.
As pessoas estão com medo de sair às ruas, isso afeta sobremaneira a vida de uma cidade que é por si só de natureza turística. Com o jogo da seleção brasileira contra o Chile nessa quarta-feira, os holofotes da imprensa mundial estavam voltados para a capital baiana, ao mesmo tempo em que os traficantes praticavam suas atrocidades e o jogo e a violência dividiam a atenção de todos os veículos de imprensa.
Por sorte ou estratégia nada de ruim aconteceu no estádio. Fora a chuva e o engarrafamento homérico, foi um jogo tranquilo com o Brasil cravando 4 gols sobre os 2 que fizeram os hermanos chilenos. Também, os santos que habitam essa terra de todos eles, devem ter dado uma força para que nada atrapalhasse o certame, até porque tragédia no futebol baiano basta o desabamento com mortes na Fonte Nova (Que ninguém nem comenta mais!).
Para logo mais é aguardada uma paralisação dos ônibus num manifesto contra a onda de violência que se abateu na cidade desde o fim de semana. Tá na hora do governo Wagner mostrar sua força ou se formará uma mancha indelével para o turismo da cidade, às vésperas da temporada de verão, que por aqui sempre chega mais cedo.
Oxalá nos proteja!
Bonus track: Hoje é o aniversário de Nando, que tá numa turnê por Minas, deixo aqui registrado meu carinho e amor por esse brasileiro_japinha tão talentoso e especial.
JoHnNy::[01:39]
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Quarta-feira, Agosto 12, 2009
música é coisa do céu e do mar
Semana de boa música na cidade. Sábado terá Os Paralamas no Cais Dourado, que não vejo há muitos anos. Eles, os rapazes da banda, porque no Cais estive semana passada no Tributo a Simonal com Max de Castro e Simoninha, filhos do cantor, mais Margareth Menezes, como convidada.
A negona, que entrou perto do final do show, foi o ponto alto do espetáculo. Tenho minhas quizilas com ela, mas não há como negar seu enorme talento, pena que é mal assessorada e sua produção musical seja aquém do seu potencial vocal.
Simoninha herdou do pai uma voz preciosa e até os maneirismos de Simonal ele incorpora. Apesar da cara de pedreiro cafajeste, ele deve fazer um sucesso enorme com as mulheres, nunca vi um feio com tanto sexy appeal em toda a minha vida!
Já Max de Castro não tem uma voz bacana, não tem beleza, não tem carisma, nada que o mainstream da música possa absorver e vender, mas o rapaz é dono de um suingue extraordinário e um estilo de se vestir de muito bom gosto. Em alguns momentos regia a banda, que vamos combinar, era composta de feras, principalmente a galera do sopro. Bons pra caralho!
Margareth, como sempre acompanhada de Saul Barbosa ao violão, deixou-se enganar por algumas letras das canções de Simonal, mas compensou dando tudo de si com um vozeirão apropriado para o samba soul do cantor, falecido em 2000.
Muitas músicas me fizeram remeter à minha infância, embora quando Simonal caíra no ostracismo eu ainda fosse um rapazinho de 12 anos no início dos anos 80.
Showzaço, que fui a convite da gentil Pity Canela, que colocou a mim e a Marcelo Maven, lá de Curitiba, a terra de Nando, na área VIP.
Sim, antes que eu esqueça, hoje tem o segundo round do meu show A VOZ E O SAMBA com direção de Andréa Daltro no Teatro Sesi Rio Vermelho, 20 horas. Ingressos esgotados! Quem quiser ver, terá sua chance nos vídeos do You Tube, é só digitar jfiguer e se deliciar com as minhas interpretações para sambas clássicos. (Cara de pau é pouco! hahahahaha)
E sexta e sábado tem CEUMAR no Sesc Senac Pelourinho, 20 horas, estarei lá coladíssimo porque é de Deus apreciar a boa música!
"Minha casa não tem porta
Minha horta não tem fruta
Quem me trata é moura torta
Lingua morta quem te escuta
Meu tesouro é uma viola
Que a felicidade oculta
Se a vida não dá receita
Eu não vou pagar a consulta"
JoHnNy::[03:06]
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Terça-feira, Agosto 04, 2009
foi um hamlet que passou por aqui
Aviso aos leitores que ainda dão as caras por aqui. Segundo o contador ainda são muitos, mas o espaço para comentários anda às moscas. Dois queridos e insuspeitados amigos reclamaram da minha ameaça em fechar o Bokapiu, um deles, escrevinhador do blog Terranauta disse que não posso fazer isso em nome da longevidade desse blog. Lá se vão oito anos, os primeiros posts datam de 2002. O segundo amigo, um intelectual respeitado, escreveu um e-mail me chamando de louco se eu fechar o blog. Portanto, enquanto não enlouqueço de vez, vamos gastar um pouco do latim por aqui.
Com dois convites gentilmente cedidos por Vadinha Moura, produtora local, fui ao Teatro Castro Alves assistir ao Hamlet na versão do Aderbal Freire Filho com Wagner Moura no papel do príncipe dinamarquês. A minha expectativa era baixa, isso deve ter ajudado ao final da fruição, apesar da 3 horas e meia de espetáculo, saí de lá com a sensação de que o teatro é ainda uma das experiências mais fascinantes da arte feita pelo homem.
O teatro estava lotado e isso deve à presença de Wagner Moura, ator global e fetiche depois do personagem do policial no filme Tropa de Elite. No entanto, quem vai ao teatro em busca do ator de novelas encontra um homem no pleno exercício do seu ofício de ator. O meu conterrâneo revela-se um ser consciente de sua função sobre o palco, apesar dos perdigotos, apesar do comentário que recebi por sms, ainda no teatro, reclamando da voz de Pato Donald, o Hamlet de Wagner é um retrato de uma geração que imprime nos palcos brasileiros um
outro sangue. Que ele consiga trazer o espetáculo de volta a Salvador a preços populares, isso encheria o bardo Shakespeare de orgulho no Olimpo teatral do céu.
Quarta agora estréio cantando no show A Voz e o Samba, Teatro do Sesi Rio Vermelho, 20 horas. E dia 12 de Agosto também. Tenho dois momentos solo em "Pecado Capital" e "Foi Um Rio Que Passou Em Minha Vida", ambas de Paulinho da Viola. As outras músicas faço coro ou canto apenas refrões.
Estou feliz e com aquela ansiedade gostosa para estar no palco cantando! Volto para contar como foi!
JoHnNy::[02:24]
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